domingo, 12 de setembro de 2010

Monólogo a dois

- O que quiseste dizer com aquilo?

- Aquilo o quê?

- Aquilo que falaste.

- Quando?

- Vai dizer que não lembras?

- Eu falo tanta coisa.

- Mas aquilo foi absurdo!

- Aquilo o quê?

- Cara, tu és muito dissimulado mesmo. Não quero mais nem papo contigo. (vira-se para ir embora)

- Ei, espera aí!

- Que foi?

- Agora me conta. O que eu falei?

- Se não sabes, eu que vou saber?

- Acabaste de dizer.

- E não lembras mais?

- Não, acabaste de dizer que eu falei o que eu não sei.

- Não, tu sabias muito bem. Estavas sóbrio.

- Puta que pariu, é difícil conversar contigo, hein?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Possível história de Pimenta Neves

Olhou no calendário e constatou: fazia três anos que não saía de casa, desde a morte da sua mulher, cujo principal suspeito era ele. Não podia conviver com os olhares inquisidores de todo mundo, certos de que ali estava um assassino repugnante, quando adentrava qualquer recinto ou caminhava nas ruas. Os comerciantes recusavam-se a atendê-lo, fechando as caras, e se insistisse poderia ouvir terríveis desaforos. As mulheres não correspondiam a seus olhares desejosos, fitavam-o com pavor, por isso incluíra em sua rotina uma ligação semanal para uma prostituta qualquer, sempre diferente. A maioria, indiferente aos noticiários, não reconhecia o psicopata que naquela época foi o grande filão sensacionalista, e que eventualmente reaparecia. Vivia dos rendimentos de uma poupança privada que, homem previdente, mantinha desde os vinte anos.

De casa acompanhava o mundo com pouco interesse. Via TV, acessava a internet, ouvia rádio, vez ou outra falava ao telefone, quando a mãe ligava, e se desfazia em lamentações que o deprimiam mais ainda. Decidiu não atender mais. A conta de email não era acessada há muito, talvez tivesse sido desativada. Apenas recebia informações, o que de alguma forma o distraía. Sentia-se como um morto insepulto, a quem tivessem negado o direito do descanso eterno. Restos de crenças antigas se acumulavam no seu espírito, impedindo "acabar logo com tudo", palavras que emergiam na consciência, e que se esforçava em empurrar para qualquer outro lugar da mente.

Acendeu mais um cigarro, recomeçou a fumar depois que "isso tudo" aconteceu. Abandonara o vício ainda jovem, esse e outros mais, mas o que pode fazer um semivelho confinado a uma casa escura e solitária?, perguntava irritado, como se algum intrometido o interpelasse. Fumava, esvaziava o bar que mantinha mais como um ícone burguês, masturbava-se compulsivamente e transava com mulheres perfeitas, autoesculpidas. Nos primeiros meses de reclusão tentara espiritualizar-se, com práticas meditativas e orações, mas acabou achando mais prático distrair-se através dos sentidos.

Três anos. Pálido, inexpressivo, naquele dia vestiu o velho paletó e foi à rua, esquecido de si mesmo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O grande escritor

Tinham-no em conta de um grande escritor. Cinquenta anos de idade, desde muito cedo descobrira que se não escrevesse sua já frágil sanidade mental corria o risco de abandoná-lo definitivamente. Andava sempre com um bloco de papel, ou um pequeno caderno, e nele rabiscava suas impressões sobre o que via. Em grande parte, as anotações eram indecifráveis, seja pela caligrafia grotesca, deformada pelo tédio e pela ira, seja pela inegável originalidade das idéias. Tão originais que nem ele ali se reconhecia. Por esse motivo, não se incomodava se, de repente, alguém surpreendesse seus papéis e tentasse ler aquilo. Entre desenhos estranhos, como a lua que se curvava dando gargalhadas, e o homem composto de mãos, as palavras seguiam-se sem nada revelar.

Até que certo rapaz, magro, alto, e com um olhar enfadonho, lançou-o sobre aquelas frases. "Isso é literatura moderna!", disse. "Tu desvirtuaste a prosa, resgatando sua perdida função poética através do intra-diálogo", completou. O rapaz tinha bons conhecimentos em uma editora, e pediu ao homem que reunisse algo. Como fosse desempregado, e além disso se atraísse pela glória, gostou da idéia. Sem qualquer critério, remexeu os velhos cadernos, e separou uns tantos que já formassem um volume. Intitulou: "Blasfêmias".

E entregou ao rapaz moderno.Os editores, embora estranhassem aquele estilo, gostaram. Era uma obra fragmentária, segundo disseram. Em um mês, "Blasfêmias" estava nas livrarias de todo o país. Críticas em jornais, TV, convites para palestras em eventos diversos, logo o homem figurava no rol dos maiores intelectuais da nação. Alguns poucos olhavam-o com ceticismo, acusavam-o de oportunista, pseudo qualquer coisa. Só que ele já havia sido advertido que surgiriam tais reações, e sabia exatamente como se portar. Os jornalistas procuravam-o para saber o que tinha a dizer sobre a declaração do multiinstrumentista Fulano de Tal. Se fosse para televisão, inclinava a cabeça, sorria debochado e soltava coisas do tipo:

- Quero que esse cara se foda. Ele já era.

No dia seguinte, sua frase saía estampada nas revistas mensais e semanais, reverberava nos programas televisivos, ganhava os outdoors, e os admiradores do grande escritor só aumentavam. O multiinstrumentista, de ícone da cultura nacional, progressivamente tornava-se símbolo de nosso atraso. Ele, o poeta pós-concreto, a atriz cult e mais alguns ícones da cultura nacional, ao investir contra o laureado escritor, automaticamente eram relegados a símbolos de nosso atraso. Os demais logo perceberam essa regra, e, muito embora quisessem enxovalhar o polêmico escritor, disso se abstinham, em nome da própria sobrevivência. Em vez disso, eram orientados a enaltecê-lo. O dramaturgo de primeira, quando apareceu a oportunidade, asseverou:

- Vivemos uma renovação no cenário socio-artístico nacional, e ele é o símbolo disso.

E daí seguiam-se loas e mais loas ao cantado em verso e prosa escritor, e os anos foram passando, sem que alguém ousasse questionar o seu inquestionável valor. Casou-se trinta vezes com as mulheres mais desejadas da nação, e por diferentes razões. Enquanto isso, continuava a encher cadernos e mais cadernos com sua refinada literatura, no entanto, após "Blasfêmias" nada mais publicou. Também nada mais falou após repetir aquelas palavras para os cinco ex-ícones que ousaram enfrentá-lo. Aos cinquenta anos morreu de cirrose, e passados outros vinte começa a ganhar fôlego uma tendência acusando-o de ter sido uma grande farsa.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sim, Shoppenhauer

Música
o mais perfeito dos comentários
conexão direta com a alma
sem atalhos
perpassa-me com seus raios
cada nota é uma orgásmica flechada
ao final
estou confortavelmente dilacerado
e repouso, aliviado.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pobres cidades ricas

Em meio a discussão sobre a distribuição dos royalties do pré-sal, provocada por emenda do deputado Ibsen Pinheiro, o jornal de divulgação científica da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), levanta uma questão pouco lembrada: o que é feito com o dinheiro do petróleo nos municípios do Norte Fluminense, que recebem a maior parte dos royalties? A matéria mostra que a população continua a ver navios e plataformas petrolíferas de longe... leia aqui.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Velho - Chico Buarque

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida iteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não
Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar

terça-feira, 2 de março de 2010

Igreja Católica S/A

A notícia não é da hora, mas segue o meu comentário: diz que D. Orani Tempesta, ex-arcebispo de Belém e atualmente na comarca do Rio de Janeiro, vai processar a Columbia Pictures por "uso indevido" da imagem do Cristo Redentor no filme "2012". Não vi o filme e nem pretendo, pois tudo indica que é um genérico dos outros filmes apocalípticos do diretor Roland Emmerich.

Mas a disposição da Igreja Católica de processar o estúdio pode ser classificada de insana ou oportunista. Como assim, o Cristo Redentor é propriedade da Igreja? Não foi o Governo do Rio de Janeiro que construiu o monumento? Creio que o uso da imagem do principal cartão-postal do Brasil é livre, pois tornou-se um ícone da topografia mundial, largamente utilizado em uma série infinita de imagens. Imagina se a Igreja resolvesse pedir indenização de pintores, fotógrafos, designers e outros artistas que utilizam a imagem do Cristo?

Fica evidente que a esperta Igreja Católica está mesmo é querendo faturar mais um pouco. Já até incorporou Cristo como sua propriedade privada...